A DOR E A DELÍCIA DE SER O QUE É...
Num dia qualquer você levanta da cama e faz uma retrospectiva da sua vida.
Do alto dos 40 e poucos anos, profissional dedicada, filho adolescente quase criado, uma separação no currículo, um grande amor pós-divórcio que se perdeu na caminhada, alguns namorados para recordar, meia dúzia de “ficantes” dos quais já nem lembra mais o nome, alguns paqueras na lista, uma dezena de amigas que a acompanham há décadas e umas que ficaram perdidas nas curvas bruscas da vida...
Em resumo na tela das suas lembranças você passa e repassa sua vida em slow motion.
Quadro a quadro imagens da sua doce adolescência, tempos da “facul” que você tanto amava, o dia do seu casamento e as emoções da nova vida, as primeiras decepções... as retomadas, as tentativas, o primeiro emprego, a pós que decidiu fazer, novos amigos na cidade também nova para onde acabou por mudar-se... a gravidez, aquele barrigão que a emocionava cada vez que seu filho mexia; o dia do nascimento, primeiro aninho (coisa mais fofa do mundo!)...
Uma crise no já abalado casamento, fim de festa, a separação, a superação das dificuldades iniciais... vida nova, liberdade outra vez, "você pode tudo que sonhar" era seu mote, corre-corre entre o trabalho e a escola do filhote, mais trabalho, mais fraldas e mamadeiras, empregada pede as contas, sufoco total. Malhação para manter o corpinho, “agora a vida entra nos eixos”, tenta yôga antes que precise, para equilibrar corpo-mente.
Um novo amor, coração explodindo no peito... “agora vai”, você pensa, “encontrei a cara-metade”; amor maduro, você linda aos 30, leu e releu os livros do Osho, aprendeu tudo sobre desapego, mais desafios no trabalho...
Aí, crise no relacionamento... o amor se transforma em outra tentativa frustrada, o cara não assume, você já não tem tempo para brincar com seus sentimentos, entre tapas e beijos vocês terminam, mais beijos do que tapas, diga-se de passagem; tudo ficou mal resolvido, nem conversam sobre os motivos, tenta tocar a vida... (pena que o amor tenha ficado martelando no peito), “nada como um novo amor para esquecer o antigo”, pena;... nada deu certo nesse aspecto, todos que chegam lembram aquele, tornando ainda mais forte o que deveria esquecer. Decide viajar, cai na balada, bota silicone, acha-se ótima, auto-estima nas alturas... Numa viagem conhece um cara incrível... Coração bate forte... “agora vai, agora vai”... que pena... Não foi dessa vez.
Filho adolescente... Trabalho na fase do platô. Precisa de novos desafios; misturam-se alegrias e tristezas. Buscando sem definir bem o quê, parte pra segunda faculdade, loucura total, você já aos 30 e tantos anos começando outra vez, frio na barriga; voltam as delícias do clima da faculdade, novos amigos, gatinho dez anos mais novo fica de quatro, totalmente apaixonado. Você embarca na aventura. Mas agora? Fazer o quê? Resolve curtir o momento. Uau! que fôlego tem o gato!...
Cansa da brincadeira, quer um amor de verdade, com quem possa trocar idéias e não apenas transar loucamente: quer um homem que a complete e a leve e a sonhar de novo.
Ainda pensa no ex-amor que não deu certo, idas e voltas com aquele do passado que traz mais frustrações do que momentos felizes. Aquilo vira uma lenda, quando se dá conta o filho já está namorando, dez anos se foram e os quarenta chegando... Êpa! E a tal crise? Nem deu tempo de sentir. Quarenta e um... Nossa! Que correria! Decide virar a vida do avesso: muda de casa, troca de carro, corta o cabelo, muda de turma, afasta-se de amigas que não “davam mais liga”, reencontra pessoas incríveis das quais se afastara sem saber por quê; resolver escrever, idéias borbulham na cabeça, como ondas, quase um tsunami mental; refaz todos os caminhos, exorciza seus fantasmas, olha-se no espelho e... finalmente se reconhece dentro de você.
“Pára o mundo que eu quero descer!!!”
Não, não... Rebobina a fita... Revê com mais calma... Ei, aquela do filme é você: bela, forte, algumas cicatrizes, é bem verdade, mas inteira. Orgulha-se do que vê, chega a emocionar-se
Foi preciso perder o rumo para reencontrar-se. Foi preciso vivenciar tudo outra vez, ainda que através das palavras que já não querem calar para que você possa, enfim, ser a pessoa que foi feita para ser.
E, neste ponto...descobre que a felicidade é uma porta que se pode abrir por dentro.
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* Jacqueline Gershenson (Jacque) é gaúcha, mora em Florianópolis, é bancária com formação em Administração de Empresas.
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