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jacquefloripa@gmail.com

» FLORIANÓPOLIS, 8 de juLho DE 2008

PALAVRA POR PALAVRA


Foi na época da minha adolescência que me apaixonei pela leitura e pela escrita de forma irrevogável. Tive o privilégio de desfrutar os últimos suspiros de um tempo em que se costumava enviar cartas manuscritas! Era parte de uma conquista amorosa enviar missivas que poderiam ser mais ou menos românticas, algumas verdadeiras obras de poesia. Tão intensas que tinham o poder de diminuir as distâncias físicas e geográficas entre os amantes.

Tal e qual um pullover tricotado a mão ponto por ponto, as cartas traziam a delicadeza e o toque pessoal de cada letra desenhada manualmente e especialmente para você, algumas exalavam suave perfume e se podia jurar que a alma do outro estava ali impressa em cada palavra. Cartas para amigos distantes, cartas de amor, cartas de despedida, cada uma com sua emoção e vibração; era mágico o ritual de abrir um envelope e dar vida a cada frase ali adormecida. Fui irremediavelmente capturada pelo prazer da leitura com as cartas adolescentes, e daí para amar os livros foi decorrência natural.
Aprecio particularmente a perspectiva de ler um texto imaginando se o autor viveu cada cena que se dedicou a escrever ou se elas aconteceram apenas em sua fértil imaginação.

Para quem escreve pode ser reconfortante ou perturbador visitar os recônditos da memória e dissecar cada lembrança por escrito. Nessa “viagem” é essencial permitir-se a mistura entre realidade e fantasia, esquadrinhar-se ilimitadamente em busca de imagens e vivências; transcender medos; transgredir barreiras; escancarar fragilidades; relatar alegrias, afetos, dores, amores, tristezas, desejos...
Escrever é por si só um ato de coragem. Ainda que você decida fazer um diário ao qual só você tenha acesso, é preciso muita galhardia para expor-se ao seu próprio olhar.

Se ousar expor seus pensamentos ao outro a coragem deve ser redobrada. Diante da devassa que a exposição causa, precisa estar preparado tanto para elogios quanto para críticas em igual medida.

Em alguns momentos, colocar-se em palavras beira uma invasão indecente e impiedosa da própria intimidade, risos e lágrimas se misturam num mar de letras e existe, para os apaixonados pela escrita, um imenso prazer ao observar cada frase formar-se na tela em branco do computador, docemente embalada em seus pensamentos ou conduzida por eles.

Ao reunir um amontoado de pensamentos difusos, que acabam por formar (ou não) uma unidade, surge a revelação de quem somos ou de quem desejaríamos ser.

Criam-se personagens e nos apropriamos deles, num misto de carinho e proteção. Mistura-se a própria identidade com a de outras pessoas e é possível descrevê-las com enredos absolutamente distintos dos que as ligam à realidade. O escritor é em primeiro lugar um observador. São muitas as histórias misturadas e interligadas neste mundo de letras e imaginação que ora o descrevem, ora são o seu oposto.

Há na escrita um júbilo indizível em misturar as figuras irreais da ficção com as “Julietas e  Romeus” que cruzaram seu caminho, alguns idealizados ao extremo, outros bem mais carnudos e palpáveis, uns poucos mais pele do que osso.

Para quem aprecia escrever, poucas coisas podem ser mais gratificantes do que ver simples idéias amadurecerem em um contexto que em verdade nunca se sabe se irão transformar-se em carta, crônica ou prosa poética...

As histórias surgem do âmago, de uma hora para outra nasce uma idéia e depois outra e juntas formam um amontoado de impressões emocionadas e tentativas, bem ou mal sucedidas, de cativar o leitor.

Para o autor é instigante saber que a leitura de seu texto propicia uma conversa tão íntima com o leitor, embora fique sempre no ar a incerteza das suas palavras, das cenas milimetricamente descritas, dos sabores dos beijos, da profundidade das dores, da intensidade dos amores.

Mas, afinal, não seria exatamente essa a intenção que os move? Desnudar ambas as partes (autor e leitor) e, ao mesmo tempo, manter permanente mistério?

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*Jacqueline Gershenson (Jacque) é gaúcha, mora em Florianópolis, é bancária com formação em Administração de Empresas.


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